História da Paróquia:

Paróquia de São Martinho

Criada em 3 de março de 1579

«Nos tempos primitivos da colonização e antes da criação da freguesia de São Martinho, pertenciam os terrenos que atualmente constituem à paróquia da Sé, passado depois a fazerem parte da de São Pedro no ano de 1579.

As terras circunvizinhas do primeiro núcleo de população que se formou no Funchal foram sujeitas a uma imediata exploração agrícola, tendo-se organizado diversas fazendas povoadas com suas capelas privadas, que deram princípio e origem às novas e futuras paróquias.

Assim sucedeu em São Martinho. Havia ali uma fazenda e uma capela de São Martinho, pertencente a Afonso Anes e foi nela que se estabeleceu a sede da paróquia, criada pelo alvará régio de 3 de março de 1579.



Nada se sabe acerca do ano da construção da capela de São Martinho nem do local em que fora edificada, conjeturando-se que ficaria situada nas proximidades da antiga igreja paroquial. Sendo de acanhadas dimensões, procedeu-se à construção duma igreja paroquial, no primeiro ou segundo quartel do séc. XVII, mas por 1735 se fez uma quase reedificação do mesmo templo, que é o mais antigo das duas atuais igreja paroquiais.


Igreja nova de São Martinho

Primeira pedra em 8 de julho de 1883

O aumento sempre crescente da população tornou a igreja de exíguas proporções para o serviço e movimento da paróquia, tentando-se a construção dum novo templo que satisfizesse inteiramente às necessidades dos fiéis. O governo central concedeu uma verba de relativa importância para a nova edificação e os paroquianos contribuíram também com valiosos donativos, devido principalmente às diligências e esforços do pároco de então, o Padre Manuel Pinto Correia. O lançamento e bênção da primeira pedra realizaram-se com toda a solenidade no dia 8 de julho de 1883, prosseguindo os trabalhos lentamente, até que, por falta de recursos, se tiveram de interromper dentro de pouco tempo.


Passados aproximadamente trinta anos, recomeçaram os trabalhos de construção. A 2 de agosto de 1907, morreu nesta freguesia o benemérito paroquiano José de Abreu, que legara a quase totalidade da sua fortuna, que para a época era avultada, à continuação das obras da mesma igreja.



Dedicação da nova Igreja em 24 de junho de 1918

Essa importância não podia acudir a todas as grandes despesas que era preciso realizar, mas o Pároco Teodoro João Henriques tomou ousadamente a iniciativa do prosseguimento das obras, contando que a generosidade dos paroquianos não deixaria por concluir os trabalhos dessa construção. E, felizmente, não se enganou. Por 1999 ou 1910 recomeçaram ativamente as obras interrompidas há mais de vinte anos, e a 24 de junho de 1918 se procedeu com todo o brilhantismo à sagração da nova igreja, que logo foi aberta ao serviço do culto, prosseguindo ainda a ornamentação dos altares e capelas e a conclusão definitiva de outros trabalhos.

Em 1921 a freguesia de São Martinho contava com 6556 habitantes» in Elucidário Madeirense.

Atualmente a freguesia de São Martinho conta com mais de 26000 habitantes (censos de 2011).

Pároco

Padre Marcos Gonçalves


Nasceu no dia 10 de setembro de 1975

Ordenado Sacerdote no dia 26 de julho de 2003

Nomeado Pároco de São Martinho no dia 8 de Setembro de 2013.


Vida de São Martinho

S. Martinho no seu tempo - algumas datas

 
  • 312- Antes de uma batalha Constantino, sonha com Cristo e tem uma visão da cruz.
  • 313- Constantino e o seu co-imperador Licínio promulgam o Édito de Nantes em que se
  • proclama a tolerância do cristianismo.
  • 316 - Nasce S. Martinho, filho de um oficial romano, na Panónia (região onde hoje é a Hungria).
  • 318-381- Arianismo. Heresia propagada por Arius, padre em Alexandria que declarava que Cristo era diferente do Pai, de Deus.
  • 324-337 - Constantino, o Grande
  • 325- Concílio de Nicea, convocado por Constantino declara que o Filho é Deus (o que negava o Arianismo, que punha em causa esse dogma)
  • 326- S. Martinho com apenas 10 anos e por sua vontade torna-se catecúmeno (aspirante ao baptismo).
  • 330- Bizâncio torna-se a capital cristã do Império com o nome de  (2ª Roma).
  • 330- S. Martinho é obrigado a ir para o exército onde pratica o seu ideal cristão de humildade e generosidade.
  • 337- Dá-se o episódio lendário em que S. Martinho partilha a sua capa de soldado romano com um pobre (em Amiens).
  • 337- Morre Constantino e sucede-lhe o filho, Constantino II- O Arianismo torna-se obrigatório.
  • -Em data indeterminada S.Martinho abandona finalmente o exército.
  • 354- S. Martinho chega a Poitiers onde se desloca para se juntar a Santo Hilário. Mas logo a seguir volta para a Itália com o objectivo de rever a família e evangelizar os seus conterrâneos.
  • 355- S. Hilário bispo de Poitiers é exilado para a Frígia.
  • 355-360- S. Martinho é expulso da sua própria terra (por causa do arianismo) e passa um tempo isolado na ilha de Galinária, no meio do Mar Tirreno.
  • 361- S. Hilário volta para Poitiers e S. Martinho também.
  • 361- Morre o Imperador Constantino e com ele a predominância e obrigatoriedade do arianismo.
  • 361- S. Martinho funda uma comunidade monástica (a primeira da Gália) em Ligugé, a 6 km de Poitiers.
  • 371- S. Martinho torna-se Bispo de Tours, cargo que ocupará cerca de 26 anos até à sua morte.
  • 372- Funda a comunidade monástica de Marmoutier, perto de Tours.
  • 375- Início das grandes invasões.
  • 380- Édito de Tessalónica. O Arianismo é proibido no na parte oriental do Império.
  • 384-395- Teodósio, o Grande. Depois da sua morte o Império fica dividido entre os seus filhos. É o fim da unidade do Império romano: o Império de Oriente seguirá o seu próprio caminho, o de Ocidente ainda durará cerca de 80 anos.
  • 391- O Cristianismo torna-se religião de estado. Proibição de todos os cultos pagãos.
  • 397- S. Martinho morre em Candes perto de Tours. No dia 11 de Novembro é enterrado com pompa e circunstância na cidade de que fora Bispo durante mais de um quarto de século.

 

DE CAVALEIRO ROMANO A APÓSTOLO DA GÁLIA


             Não podemos dizer que a vida de São Martinho «se perde na noite dos tempos», porque este santo, nascido em território do império romano - Sabaria na antiga Panónia, hoje Hungria, entre 315 e 317, foi o primeiro santo do Ocidente a ter a sua biografia escrita por um contemporâneo seu - o escritor Sulpício Severo.
             Martinho era filho de um soldado do exército romano e, como mandava a tradição, filho de militar segue a vida militar, como filho de mercador é mercador e filho de pescador devia ser pescador.St. Martin and the Beggar - National Gallery of Art, Washington Martinho estudou em Pavia, para onde a família foi viver, e entrou para o exército com 15 anos, tendo chegado a cavaleiro da guarda imperial. Tinha a religião dos seus antepassados, deuses que faziam parte da mitologia dos romanos, deuses venerados no Império Romano, que, como é óbvio, variavam um pouco de região para região, dada a imensidão do Império. As Gálias teriam os seus deuses próprios, como os tinham a Germânia ou a Hispânia.
             O jovem Martinho não estava insensível á religião pregada, três séculos antes, por um homem bom de Nazaré. Um dia aconteceu um facto que o marcou para toda a vida. Numa noite fria e chuvosa de Inverno, às portas de Amiens (França), Martinho, ia a cavalo, provavelmente, no ano de 338, quando viu um pobre com ar miserável e quase nu, que lhe pediu esmola e Martinho, que não levava consigo qualquer moeda, num gesto de solidariedade, cortou ao meio a sua capa (clâmide) que entregou ao mendigo para se agasalhar. Os seus companheiros de armas riram-se dele, porque ficara com a capa rasgada. Segundo a lenda, de imediato, a chuva parou e os raios de sol irromperam por entre as nuvens. Sinal do céu. Seria milagre?


 

 

MARTINHO E CONSTANTINO I


             Conta a lenda, que no dia seguinte Martinho teve uma visão e ouviu uma voz que lhe disse: «Cada vez que fizeres o bem ao mais pequeno (no sentido social de mais desprotegido) dos teus irmãos é a mim que o fazes». A partir desse dia Martinho passa a olhar para os cristãos de outro modo. Recordamos que o Cristianismo teve dificuldade em se impor como religião, e que um passo importante dado, nesse sentido, foi por Constantino I, que, em 313, permite que o Catolicismo seja livremente praticado no Império. Com o tempo foi aceite como religião do Estado.
             Constantino - o Grande - acreditou que o deus dos cristãos, que ele, de início associava ao Sol, o protegia e que lhe proporcionara a grande vitória contra Maxêncio, em 312. Acabará senhor absoluto do Império, tanto a Oriente, como a Ocidente, depois da vitória sobre Licínio, em 324. Consta que Constantino I terá visto no céu, antes da batalha com Maxêncio, a frase: «In Hoc Signo Vinces (Por este símbolo(cruz de Cristo) vencerás)» e daí o início da sua conversão. A testemunhar essa conversão existe o Arco de Constantino, em Roma, erigido para celebrar a vitória, onde consta a frase «por inspiração da Divindade e pela sua (de Constantino) grandeza de espírito». A testemunhar a sua conversão há o facto de o prefeiro pretoriano da Hispânia, Acílio Severo, conhecido por Lactâncio ter sido o primeiro prefeito cristão de Roma, em 326.
             Constantino I fundou a cidade de Constantinopla, onde fez a nova capital do Império, na antiga Bizâncio, e mandou edificar inúmeras igrejas, para o culto cristão, por todo o Império. A cidade foi sagrada no ano 330. As mais importantes igrejas foram a basílica de Latrão, a igreja de São Pedro, em Roma, a igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, bem como basílicas em Numídia e em Trèves. Deu-se origem às fundações da Igreja da Santa Sabedoria (Hagia Sophia), em Constantinopla, que, viria, em 1453 a ser tomada pelos árabes e Constantinopla passou a chamar-se Istambul. Constantino I é baptizado no leito de morte, no ano de 337 e sepultado na basílica dos Apóstolos naquela cidade. Deixa o império dividido pelos seus três filhos Constantino II, Constâncio e Constante, que vão lutar entre si ficando senhor do Império Constâncio II.


 

 

A LENDA DE MARTINHO


             Depois do encontro de Martinho com o pobre que seria o próprio Jesus, sente-se um homem novo e é baptizado, na Páscoa de 337 ou 339. São Martinho renunciando a espada. Pintura mural na Igreja de São Francisco de Assis (1317)Martinho entende que não pode perseguir os seus irmãos na fé. Percebe, que os outros são, na realidade, mais seus irmãos que inimigos. Só tem uma solução - o exílio, porque, oficialmente, só podia sair do exército com 40 anos. Hoje o sentido de irmão está, no Ocidente, perfeitamente interiorizado, mas, na época era algo de totalmente revolucionário. Era uma sociedade estratificada, e os grandes senhores, onde se incluía a classe militar, não se misturavam com a plebe, e muito menos um escravo era considerada pessoa humana. Daí Cristo ter sido crucificado. O amor entre todos, como irmãos que pregava era verdadeiramente contra os usos do tempo. Todos o que o seguiram e praticaram a solidariedade eram vistos como marginais e mais ou menos perseguidos.
             Martinho, ainda militar, mas com uma dispensa vai ter com Hilário (mais tarde Santo Hilário) a Poitiers. Funda primeiro o mosteiro de Ligugé e depois o mosteiro de Marmoutier, perto de Tour, com um seminário. Entretanto a sua fama espalha-se. Muitos homens vão seguir Martinho e optar pela a vida monástica. Com o tempo, as suas pregações, o seu exemplo de despojamento e simplicidade, fazem dele um homem considerado santo. É aclamado bispo de Tours, provavelmente em Julho de 371. Preocupado com a família, lá longe, e com todo o entusiasmo de um convertido vai à Hungria visitar a família e converte a mãe.
             A vida de São Martinho foi dedicada à pregação. Como era prática no tempo, mandou destruir templos de deuses considerados pagãos, introduziu festas religiosas cristãs e defende a independência da Igreja do poder político, o que era muito avançado para a época. Nem sempre a sua acção foi bem aceite, daí ter sido repudiado, e, por vezes, maltratado.


 

 

VITA MARTINI


             Sulpício Severo, aristocrata romano, culto e rico fica fascinado com o comportamento pouco comum de Martinho e escreve, entre 394 e 397 a biografia, daquele que ficaria conhecido por São Martinho de Tours. A obra chama-se apenas Vita Martini (escrito em latim), livro que teve enorme repercussão no mundo medieval. Espalhou-se até Cartago, Alexandria e Síria. Sabe-se que este livro foi muitíssimo lido (Enciclopedia Cattolica, Cidade do Vaticano, 1952, p. 220), o que era difícil numa época em que os livros eram caros e quando só o clero e monarcas mais cultos os leriam, mas o certo é que foi um verdadeiro «best-seller».
             Só em 357 Martinho é dispensado oficialmente do exército e continua a espalhar a sua fé. Morre em Candes, no dia 8 de Novembro do ano de 397 e o seu corpo foi acompanhado por 2 000 monges, muito povo e mulheres devotas. Chega à cidade de Tours no dia 11 de Novembro. O seu culto começou logo após a sua morte. Em 444 foi elevada uma capela no local. Não foram só as gentes das Gálias que o veneraram, o seu culto espalhou-se por todo o Ocidente e parte do Oriente. Na cidade francesa de Tours, foi erguida uma enorme basílica entre 458 e 489 que viria a ser lugar de peregrinação, durante séculos. Em França há perto de 300 cidades e povoações com o nome de São Martinho e, em Portugal, numa breve contagem, descobrimos 60. É, no entanto, importante frisar que nem todas serão evocações de São Martinho (o da capa), mas também de São Martinho de Dume (na região de Braga), também originário da Hungria (séc. VI).
             Por toda a Europa os festejos em honra de São Martinho estão relacionados com cultos da terra, das previsões do ano agrícola, com festas e canções desejando abundância e, nos países vinícolas, do Sul da Europa, com o vinho novo e a água-pé. Daí os adágios «Pelo São Martinho vai à adega e prova o teu vinho» ou «Castanhas e vinho pelo São Martinho».